"O tal do brilho"
- Inside Yoga

- 10 de jun.
- 5 min de leitura
Uma reflexão sobre uma das maiores travas que tive como professora de Yoga.
Durante muitos anos, a minha maior trava como professora de Yoga era em relação às aulas suaves. Como criar sequências tranquilas que realmente trouxessem uma transformação imediata aos alunos?
Diminuir o ritmo da prática nunca foi um problema, nós sabemos que qualquer professora consegue retirar algumas posturas mais exigentes, reduzir a intensidade da aula e conduzir uma prática mais tranquila. Isso eu também sempre soube fazer, mas a questão que me acompanhava era outra, eu queria saber como gerar a mesma sensação de transformação imediata que encontramos nas práticas mais intensas e dinâmicas…

Quem pratica Haṭha Yoga, Aṣṭāṅga Yoga ou outras modalidades mais vigorosas entende do que estou falando. Existe uma sensação muito clara ao final da prática, o corpo desperta, a energia circula, a mente parece mais organizada e muitas vezes saímos da aula com uma sensação de vitalidade difícil de explicar.
A Haṭha Yoga Pradīpikā, um dos textos clássicos do Yoga, menciona o brilho como um dos resultados da prática, e é exatamente isso que muitas vezes sentimos, uma sensação de brilho, presença e expansão da energia.
Você sabia que a palavra Haṭha está associada à força e ao esforço? O Haṭha Yoga é tradicionalmente conhecido como o Yoga da força e trabalha a nossa capacidade de mobilizar energia para equilibrar Ha e Tha, o Sol e a Lua, as energias da expansão e do recolhimento. Talvez seja justamente por isso que nos sentimos radiantes ao final da prática.
Quando praticamos com intensidade sentimos a energia circular com mais força pelo corpo e muitas vezes saímos da aula com aquela sensação de vitalidade, presença e brilho que é difícil de descrever. É como se algo tivesse sido reorganizado internamente e por alguns instantes nos sentíssemos mais despertas, mais vivas e mais conectadas com nós mesmas.
Mas quando as alunas chegavam exaustas, sobrecarregadas ou sem condições físicas para sustentar uma prática mais intensa, eu diminuía o ritmo da aula, mas sempre ficava com a sensação de que algo faltava. A aula era agradável, o alongamento era bom, as alunas relaxavam e eu tenho certeza que a prática tocava de certa forma, mas ainda assim eu não sentia que a experiência era completa do ponto de vista energético. Faltava aquela sensação de transformação que eu encontrava nas práticas mais intensas, faltava a percepção de que algo realmente tinha mudado entre o momento em que a aluna entrava na sala e o momento em que saía, faltava "o tal do brilho”.
Com o passar dos anos comecei a perceber que esse problema não acontecia apenas quando eu estava dando aulas, acontecia comigo também. Nos períodos de maior cansaço, justamente quando eu mais precisava praticar, era quando eu deixava de praticar, porque simplesmente não dava valor às aulas suaves.
Quantas vezes pensei "melhor não praticar do que fazer uma prática leve demais"... eu simplesmente não encontrava sentido nas alternativas que conhecia, ou era intenso ou não era. E assim comecei a notar que o mesmo acontecia com os meus alunos, afinal, se eu não dava valor à suavidade, por que eles dariam?
Mas chegou um momento em que percebi que o problema era justamente tentar transformar uma prática de Haṭha Yoga em uma aula suave pois eu estava mudando o propósito da prática.
Então, o que me faltava eram as ferramentas adequadas para os momentos em que não tínhamos energia para uma prática intensa. Eu precisava encontrar uma forma de continuar praticando nos dias de exaustão sem sentir que estava abrindo mão da profundidade da experiência, e percebi que os meus alunos precisavam exatamente da mesma coisa. Precisávamos de práticas que nos permitissem continuar cuidando do corpo, da mente e da energia mesmo nos períodos de maior sobrecarga.
Hoje consigo perceber que a minha verdadeira trava não era a falta de conhecimento técnico. Eu já conhecia posturas, anatomia, alinhamento e metodologia de ensino, já tinha feito inúmeras formações, mas o que me faltava eram ferramentas com objetivos e propósitos diferentes daqueles que eu encontrava nas aulas de Haṭha Yoga e nas práticas mais dinâmicas, afinal, ao suavizar a prática eu estava caminhando na direção oposta daquilo que durante anos aprendi a associar ao "Yoga da força".
Foi nessa inquietação, buscando alternativas (e o brilho da prática rs), e também em um momento da vida em que eu estava fisicamente exausta e pulando várias práticas, que cheguei ao Yin Yoga.
O que encontrei não foi apenas um conjunto novo de posturas ou uma forma mais lenta de praticar, encontrei no Yin um novo método, uma forma diferente de compreender o corpo, a energia, a recuperação e os processos de transformação.
Aos poucos fui percebendo que uma prática não precisa ser intensa fisicamente para ser profunda, ela precisa ter direção energética e intenção. Com a intenção correta, comecei a entender que era possível encontrar aquela mesma sensação de vitalidade e brilho que eu tanto amava nas práticas mais intensas.
O Yin Yoga me ensinou que uma prática suave também precisa ser construída a partir de uma lógica capaz de conduzir o aluno para uma experiência específica, seja ela de descanso, recuperação, revitalização ou equilíbrio energético.
Foi estudando Medicina Tradicional Chinesa, meridianos, tecidos conectivos, praticando e observando muitos alunos ao longo de muitos anos de ensino que percebi que o Yin Yoga realmente era uma modalidade diferente. E como professora que sou, tudo aquilo que estudo, aplico e percebo que funciona, sinto vontade de compreender mais profundamente e depois compartilhar com os meus alunos.
E foi aí que a Formação em Yin Yoga nasceu, da vontade de compartilhar aquilo que tinha trazido o brilho de volta para a minha prática. E não, eu não abandonei o Haṭha Yoga, eu apenas aprendi que cada prática tem o seu propósito e o seu momento. Aprendi a utilizar o Haṭha e o Yin de forma estratégica, respeitando as necessidades do corpo e da mente, para que o Yoga, seja qual for a modalidade, me ajudasse a sustentar uma prática diária que realmente oferecesse suporte para a vida.
Porque, no final das contas, a questão nunca foi criar uma aula mais suave, a questão sempre foi saber como transformar uma aula suave em uma experiência energética capaz de oferecer ao aluno que chega cansado uma oportunidade real de cuidado, recuperação e transformação.
E talvez essa também seja a sua trava.
Talvez você já saiba conduzir uma boa aula de Haṭha Yoga, talvez já conheça muitas posturas e talvez até ensine há anos, mas ainda sinta que faltam ferramentas para atender os alunos nos momentos em que eles mais precisam da suavidade da prática, suavidade e brilho, claro rs.
E se essa é a sua trava atual, como um dia também foi a minha, e se tudo isso fez sentido para você, neste sábado começa uma nova turma da Formação em Yin Yoga e ainda dá tempo de se inscrever.
Início da Formação: Dia 13/06 às 7h (BRA) e 11h (PT)
Nos escreva, será um prazer compartilhar com você o método que transformou não apenas a forma como cuido dos meus alunos, mas também a forma como aprendi a cuidar de mim mesma.
Hariḥ Oṁ 🤍



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