Impermanência: o corpo, o tempo e o peso de querer segurar tudo
- Inside Yoga

- 26 de mar.
- 5 min de leitura
Namaste, espero que você esteja bem.
Esse mês me percebi escrevendo muitos textos sobre a impermanência da vida.

Textos que começaram com força, mas que em algum momento ficaram pelo caminho, inacabados, deixados para depois. Sempre com a sensação de que ainda faltava algo, que ainda precisava revisar, melhorar, acrescentar. E, no fundo, existe uma parte de mim que sabe que esses textos talvez nunca fiquem “prontos”, porque existe sempre algo a mais que poderia ser dito, ajustado ou aprofundado.
Só que, ao mesmo tempo, começo a me questionar se eles realmente precisam chegar a esse lugar de perfeição, ou se a função deles já não estaria cumprida simplesmente por existirem e serem compartilhados.
Porque, no fim, esses textos não são um fim em si mesmos, eles são um meio. Um meio de organizar pensamentos, de dar forma ao que sinto, de levar alguma leveza, alguma compreensão e conhecimento para quem lê. Mas, para que cumpram esse papel, eles precisam acompanhar o ritmo da vida, e não tentar impedir o seu movimento.
Quando eu me afasto dessa compreensão, escrever deixa de ser natural e passa a ser um peso. Não porque eu não ame escrever, pelo contrário, mas porque a cobrança e a expectativa começam a ocupar mais espaço do que a própria experiência. E, nesse lugar, travamos.
Talvez, no fundo, todo esse movimento revele o mesmo lugar: a tentativa de segurar aquilo que, por natureza, não pode ser segurado.
E a gente segura mesmo, e ao segurar, impedimos que algo que já está vivo possa simplesmente seguir o seu curso e talvez tocar alguém, mesmo que de forma simples.
E é curioso perceber como esse movimento não acontece só na escrita, ele aparece em muitos aspectos da vida.
No Yoga, Taoismo, no Budismo e em tantas outras tradições, existe um ensinamento muito claro sobre a transitoriedade de todas as coisas. Tudo muda, tudo se transforma, tudo passa mas ainda assim, a gente insiste em se apegar à ideia de permanência, à ideia de que algo pode ser fixo, estável, definitivo e, mais ainda, à ideia de que pode ser perfeito. Mas perfeito para quem, e por quanto tempo, se tudo já está em movimento?
O nosso próprio corpo já nos lembra disso de forma muito direta. A palavra “corpo”, em sânscrito, é śarīra, e o significado desse termo vai muito além de uma estrutura física. Nos principais dicionários śarīra é descrito como aquilo que é perecível, aquilo que se desgasta, aquilo cuja própria natureza é se decompor. É aquilo destinado à dissolução, ou seja, o próprio corpo carrega, na sua própria nomeação, a lembrança constante de que nada aqui é permanente.
E, se o corpo, a nossa casa, já está sujeito a esse processo inevitável de transformação e dissolução, por que ainda existe tanto apego às pequenas coisas, às expectativas, às formas como acreditamos que a vida deveria ser? Por que esse esforço tão grande em controlar, ajustar, garantir, como se isso pudesse, de alguma forma, nos dar alguma segurança real?
Quando olhamos para a perspectiva do Yin e do Yang, esse movimento também se apresenta.
O Yang, com seu impulso de ação, realização e movimento, é essencial para a vida. É ele que nos faz agir, criar, construir, nos colocar no mundo. Mas, quando em excesso, ele se manifesta como essa necessidade constante de fazer, de dar conta, de alcançar, de melhorar e muitas vezes se disfarça de busca por perfeição. E essa busca, quando não equilibrada pelo Yin, torna-se exaustiva. Porque ela nunca se completa, sempre há algo a mais para fazer, ajustar, corrigir.
O Yin, por outro lado, nos convida ao espaço do ser, do sentir, da pausa, da escuta. Ele não está preocupado em melhorar ou aperfeiçoar, mas em permitir que as coisas sejam como são, em reconhecer o ritmo natural da vida. E talvez o que estejamos vivendo, muitas vezes, seja um afastamento desse espaço ou mesmo um esquecimento desse equilíbrio. Porque sabemos que a vida pede ação, que temos responsabilidades, compromissos, demandas reais, mas será que estamos conseguindo sustentar também esse espaço de pausa, de presença, de não fazer?
O nosso corpo está acostumado a responder antes mesmo da mente perceber. Quando o “ter que” começa a se acumular, ele aparece na respiração mais curta, na aceleração, na tensão constante. E, nesses momentos, talvez valha a pergunta: será que esse caminho ainda está alinhado, ou estamos apenas seguindo um ritmo automático de “ter que fazer” que já não nos serve mais?
Esses textos que mencionei e que ficaram pelo caminho, de certa forma, também falam sobre isso.
Falam sobre o meu próprio apego, sobre a dificuldade de aceitar que as coisas não precisam estar finalizadas para terem valor e que não precisam ser perfeitas para serem verdadeiras. Existe um desconforto nesse reconhecimento, porque mudar nem sempre é simples. Mas, ao mesmo tempo, permanecer exatamente igual também já não é possível.
E talvez seja justamente nesse ponto que algo importante acontece. Quando conseguimos reconhecer, quando conseguimos enxergar com um pouco mais de clareza, surge a possibilidade de soltar. E soltar, nesse contexto, não tem a ver com perder, mas com liberar espaço. Com permitir que a vida continue se movendo enquanto deixamos de sustentar aquilo que já não precisa mais ser sustentado.
Então por que não soltamos antes? Porque, por tantas vezes, demoramos a nos lembrar da impermanência. E talvez isso também faça parte do próprio caminho, porque são justamente os processos que nos ensinam. Esquecer faz parte, assim como lembrar também faz. Existe um tempo entre um e outro, e é nesse intervalo que a vida nos molda, nos confronta e, muitas vezes, nos transforma.
O Tao Te Ching traz uma compreensão muito profunda quando aponta que, para florescer, algo em nós precisa antes se quebrar por inteiro pois existe sempre um movimento de dissolução antes da renovação. É o morrer para renascer, ou até mesmo viver o excesso para, através dele, reconhecer o desequilíbrio e então se reencontrar. Nem sempre aprendemos pela suavidade, e tudo bem, às vezes é no limite que algo se revela com mais clareza.
No fundo, nunca será sobre escolher entre Yin e Yang, entre fazer ou ser, entre agir ou pausar, porque a vida precisa dos dois. Existe um movimento constante de dar e receber, de expandir e recolher, de construir e integrar. O desequilíbrio não está na presença de um ou de outro, mas no esquecimento desse movimento.
Talvez tenha sido Patañjali quem disse (confesso que não lembro) mas ouvi dentro da tradição que, nesta caminhada de autoconhecimento, é necessário memória. Memória para se lembrar constantemente, sem se distrair, que a vida é Yin e Yang, que a vida é ciclíca. E, antes que o corpo precise gritar, antes que o cansaço se torne a única linguagem possível, que você se lembre de pausar.
E por fim, não espere pelo tempo perfeito. Nem para escrever, nem para viver, nem para fazer aquilo que, de alguma forma, já pede espaço dentro de você. Porque enquanto esperamos pelo momento ideal, a vida já mudou. Aquilo que poderia ter sido compartilhado já se transformou, já seguiu adiante, já encontrou outro ritmo.
E tudo bem.
Porque é assim que a vida se move.
Hariḥ Oṁ, Paty.



Comentários