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O que uma lesão no quadril me ensinou

  • Foto do escritor: Inside Yoga
    Inside Yoga
  • 16 de abr.
  • 5 min de leitura

Namaste, espero que você esteja bem.


Sim, este é um texto sobre o quadril.

Mas, antes de falar de anatomia, prática ou lesão, eu quero começar com uma história minha :)


Há três anos, comecei a sentir uma dor no quadril que irradiava para o lado esquerdo da lombar. Era uma dor que vinha e passava e, justamente por isso, eu não dava muita atenção e sempre pensava que tinha forçado um pouco na prática e que logo passaria.


Naquela época, eu estava vivendo muitas mudanças, e em um um novo país, em uma nova casa, fui me adaptando com o que tinha disponível. Isso incluía trabalhar sentada no chão, usando uma mesinha de centro. Eu passava horas debruçada pra frente sentada muitas vezes em lótus.


Eu demorei para perceber que estava criando um novo padrão no corpo, um padrão que, aos poucos, começou a se tornar uma sobrecarga.


Levou cerca de um ano para que a ficha realmente caísse, e neste ponto eu já não conseguia mais sentar no chão para trabalhar. Assumi que ia ficar definitivo, comprei uma mesa e uma cadeira rs, e foi maravilhoso, masss naquele ponto, o processo já estava instalado. Em um ano de repetição e falta de ajuste ganhei uma lesão de quadril.


Claro que outros fatores também contribuíram como o próprio processo de envelhecimento, a forma como o corpo responde ao longo dos anos, e até aspectos nutricionais como a falta adequada de proteína, tudo teve impacto direto na capacidade de regeneração dos tecidos.


E aqui fica uma observação importante: especialmente após os 40 anos, é fundamental estar atenta à ingestão proteica, principalmente nas dietas vegetarianas pois a proteína faz muita falta no corpo.


Então, para encerrar, foi apenas quando a dor se tornou constante, quase crônica, que procurei ajuda médica, fiz uma ressonância e veio o diagnóstico: lesão de labrum.


Formação em Yin Yoga

O Quadril


O quadril é uma das regiões mais complexas e, ao mesmo tempo, mais exigidas do corpo humano. Ele sustenta o peso do corpo, participa de praticamente todos os movimentos e atua como uma ponte entre a estabilidade da base e a mobilidade do tronco.


No contexto do Yoga, e especialmente no Yin Yoga, o quadril se torna um território de investigação profunda pois é uma região onde frequentemente se acumulam tensões físicas, limitações estruturais e também padrões mais sutis de resistência.


Quando falamos em lesões de quadril, é importante sair de uma visão simplista de causa e efeito e compreender que, muitas vezes, o desconforto não surge de um único movimento, mas de um conjunto de fatores: sobrecarga repetitiva, desalinhamentos, falta de mobilidade em regiões adjacentes, compensações e até mesmo a estrutura anatômica individual.


O quadril é uma articulação do tipo esferoide (bola e soquete), formada pela cabeça do fêmur e o acetábulo da pelve. Essa configuração permite uma grande amplitude de movimento (flexão, extensão, rotações, abdução e adução) mas também exige estabilidade e é justamente nesse equilíbrio entre mobilidade e estabilidade que muitas lesões se desenvolvem.


Lesão de Labrum


O labrum é uma estrutura de fibrocartilagem que envolve o acetábulo, aprofundando a cavidade e ajudando a estabilizar a articulação do quadril. Ele atua como um “anel de vedação”, contribuindo para a distribuição de carga e para o encaixe mais seguro da cabeça do fêmur.


Quando ocorre uma lesão no labrum, essa estabilidade é comprometida. Movimentos que antes eram neutros podem começar a gerar atrito, desconforto ou até dor mais aguda.


Lesões que envolvem cartilagem são particularmente delicadas, porque essa região tem baixa vascularização. Isso significa que o processo de regeneração é mais lento e, muitas vezes, mais limitado. Por isso, o cuidado com esse tipo de lesão exige tempo, consistência e, principalmente, respeito aos limites do corpo.


No meu caso, foram necessários anos para começar a perceber uma melhora mais consistente. E talvez seja justamente por isso que surgiu a vontade de escrever sobre esse tema.


Porque, muitas vezes, esperamos chegar ao extremo para então mudar sendo que o corpo já estava a muito tempo dando sinais. E a pergunta que ficou foi, "como assim eu não me escutei?"


Formação em Yin Yoga

O que não vemos: padrões, emoções e o corpo


Gosto também de observar como o quadril, do ponto de vista anatômico, se conecta diretamente com o psoas, um músculo profundo que liga a coluna ao fêmur. O psoas participa da postura, da respiração e também está associado a respostas de proteção do sistema nervoso.


Em contextos de estresse, tensão ou adaptação constante, é comum que essa musculatura permaneça em estado de contração, e com o tempo, isso pode influenciar padrões de movimento, gerar compressões e alterar a dinâmica do quadril.


Além disso, o quadril é uma região de transição e muitas vezes reflete a forma como sustentamos a vida, lidamos com mudanças e com aquilo que precisa ser integrado ou liberado.


O corpo não separa experiência física e experiência emocional de forma rígida.


Yin Yoga e o cuidado com o quadril


No Yin Yoga, trabalhamos com permanências mais longas nas posturas, com a musculatura relativamente relaxada, permitindo que o estímulo alcance tecidos mais profundos, como fáscia, ligamentos e cápsulas articulares.


Essa característica torna a prática extremamente potente, mas também exige discernimento.

Diferente de práticas mais dinâmicas, no Yin não buscamos intensidade muscular, mas sim uma carga progressiva e respeitosa nos tecidos. Quando essa linha é ultrapassada, o que poderia ser um estímulo terapêutico pode se tornar uma sobrecarga.


Uma das questões mais importantes na prática de Yin é compreender a diferença entre sensação e dor. Sensações de alongamento, compressão moderada ou intensidade difusa podem fazer parte da prática. Já dores agudas, pontuais, profundas ou que geram proteção imediata indicam que algo não está sendo bem recebido.


No quadril, especialmente, é comum confundir profundidade com benefício, e as vezes, é justamente o excesso que leva a microlesões ao longo do tempo.


Entre as condições mais comuns relacionadas ao quadril, encontramos, bursites, tendinites, lesões do labrum e processos degenerativos como a artrose.


Dentro da prática de Yin Yoga, posturas como borboleta, dragão ou cisne precisam ser adaptadas com atenção ou, em alguns casos, evitadas temporariamente.


Outro ponto fundamental é reconhecer a individualidade estrutural pois nem todos os quadris são iguais. A profundidade do acetábulo, o ângulo do colo do fêmur e a orientação da pelve variam de pessoa para pessoa. Isso significa que duas pessoas na mesma postura terão experiências completamente diferentes.


Por isso, no Yin Yoga, não buscamos a forma ideal da postura, mas a função da postura no corpo individual.

Formação em Yin Yoga

Direcionamentos práticos para a prática


O uso de suportes, os "props", como blocos, almofadas e o bolster trazem sustentação para o corpo o que permite que a musculatura relaxe de fato, evitando sobrecarga nas estruturas mais sensíveis.


A entrada nas posturas deve ser sempre gradual pois o corpo precisa de tempo para reconhecer o estímulo e responder a ele.


As longas permanências também vão nos exigir bastante presença, pois é necessário manter a leitura do corpo o tempo todo para não se distrair e colapsar. Ao terminar uma postura, mantenha a mesma atenção, faço a transição de forma bem lenta permitindo que o corpo integre o estímulo recebido.


Para alunos com histórico de dor ou lesão, reduzir a amplitude pode ser suficiente, mas para lesões atuais a prática precisa ser adaptada.


Considerações finais


O Yin Yoga não é uma prática pra forçar uma abertura, precisamos de corpos funcionais e não “abertos demais”. O objetivo não é ir mais longe, mas ir com mais consciência e fazer da prática um momento consigo de escuta e autoconhecimento.


O quadril, com toda a sua complexidade, nos ensina sobre equilíbrio entre mobilidade e estabilidade, entre ação e entrega, entre intensidade e respeito.


E, muitas vezes, o maior aprendizado não está em aprofundar a postura mas em reconhecer o momento de parar.


Boas práticas,

Hariḥ Oṁ

Paty Abreu

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