Fáscia e sistema nervoso: como o corpo percebe, adapta e responde aos estímulos

Durante muito tempo, a fáscia foi apresentada principalmente como um tecido de sustentação: uma espécie de envoltório que recobre músculos, órgãos, vasos e outras estruturas do corpo, mas hoje sabemos que essa visão é limitada. A fáscia forma uma rede contínua de tecido conjuntivo, participa da transmissão de forças e do movimento e, além disso, possui uma relação muito próxima com o sistema nervoso.
Essa relação ajuda a compreender por que uma prática corporal não atua apenas sobre músculos e articulações. Cada movimento, pressão, alongamento e mudança de posição produz informações sensoriais que precisam ser percebidas e interpretadas pelo sistema nervoso.
Para professoras de Yoga, compreender essa comunicação entre fáscia e sistema nervoso transforma também a maneira de olhar para a prática.

A fáscia é um tecido sensorial
A fáscia é amplamente inervada e alguns estudos anatômicos identificam no tecido fascial diferentes tipos de terminações nervosas envolvidas na percepção de pressão, tensão, movimento, posição corporal e estímulos potencialmente nocivos.
Isso significa que, quando movimentamos ou tensionamos um tecido estamos produzindo uma ação mecânica e ao mesmo tempo, uma grande quantidade de informação sensorial está sendo enviada ao sistema nervoso. Essa comunicação acontece continuamente.
Ao caminhar, permanecer sentados, sustentar uma postura de Yoga ou mudar o peso de uma perna para outra, receptores presentes nos músculos, articulações, pele e tecidos fasciais ajudam o sistema nervoso a compreender onde estamos no espaço e como organizar o corpo diante das demandas daquele momento.
Thomas Myers, autor de Anatomy Trains, chama atenção justamente para essa relação entre a rede fascial e a rede neural. O sistema nervoso se ramifica por todo o organismo, enquanto a fáscia oferece uma rede contínua através da qual forças mecânicas são distribuídas.
Corpo e sistema nervoso, portanto, estão constantemente trocando informações.
Fáscia, propriocepção e interocepção
Essa dimensão sensorial nos leva a dois conceitos particularmente importantes para o Yoga: propriocepção e interocepção.
A propriocepção é a capacidade de perceber a posição e o movimento do corpo. É o que permite fechar os olhos e ainda assim saber aproximadamente onde está a sua mão, perceber a distribuição do peso entre os pés ou ajustar uma postura sem precisar observar o próprio corpo no espelho.
Essa é também uma das razões pelas quais, tradicionalmente, muitas salas de Yoga não utilizam espelhos. Quando diminuímos a dependência da referência visual, somos convidados a perceber a postura a partir de dentro, desenvolvendo uma consciência mais refinada da posição, do movimento e das sensações do próprio corpo.
A interocepção, por sua vez, está relacionada à percepção dos estados internos do organismo. Respiração, batimentos cardíacos, temperatura, tensão, conforto e desconforto fazem parte desse universo de informações que continuamente chegam ao cérebro.
A prática de Yoga pode ampliar a atenção destinada a essas informações.
Quando pedimos a um aluno que perceba onde existe tensão, observe a respiração ou reconheça as diferenças entre os dois lados do corpo, estamos refinando sua capacidade de perceber a própria experiência corporal.
Fáscia, sistema nervoso e memória corporal
A relação entre fáscia e sistema nervoso acontece nas duas direções. Ao mesmo tempo em que o sistema nervoso recebe constantemente informações dos tecidos, ele também influencia a respiração, o tônus muscular, a frequência cardíaca e a maneira como percebemos e organizamos o corpo.
O sistema nervoso autônomo participa de muitas dessas respostas, mas de maneira simplificada, podemos compreender o sistema simpático como responsável por mobilizar recursos quando precisamos agir ou responder a uma demanda, enquanto o sistema parassimpático está mais relacionado aos processos de repouso, digestão e recuperação. Os dois trabalham continuamente, ajustando o organismo às necessidades de cada momento.
Por isso, o estado em que uma pessoa chega à prática de Yoga importa. Uma postura realizada quando o aluno está tranquilo e se sente seguro pode ser percebida de maneira diferente daquela mesma postura em um momento de apreensão, dor ou estresse. O estímulo sobre os tecidos pode ser semelhante, mas a maneira como o corpo o percebe e responde a ele pode mudar.
Quando vivenciamos períodos de estresse, por exemplo, podemos perceber mudanças na respiração, aumento do tônus muscular e diferentes formas de organizar o corpo. Os ombros podem ficar mais elevados, a mandíbula mais tensa, o tórax mais fechado ou a respiração mais curta. Quando esses estados se repetem continuamente, alguns desses padrões podem se tornar habituais.
A fáscia participa desse processo. Por ser um tecido altamente sensorial, adaptável e intimamente relacionado aos músculos e ao sistema nervoso, ela responde aos estímulos e às forças que o corpo recebe ao longo do tempo. Nossos movimentos, posturas e hábitos cotidianos participam, portanto, da maneira como essa rede se organiza.
Mas será que a fáscia pode guardar memórias?
A ideia de memória fascial ou memória corporal aparece com frequência nas práticas somáticas e também vem sendo discutida por pesquisadores da área. Experiências físicas podem, de fato, deixar padrões duradouros no organismo. Depois de uma lesão, por exemplo, uma pessoa pode continuar protegendo determinada região mesmo quando o tecido já se recuperou. Ela pode evitar um movimento, modificar a forma de caminhar ou distribuir o peso de maneira diferente sem sequer perceber.
Algo semelhante pode acontecer com experiências emocionais quando estados recorrentes de medo, estresse ou insegurança podem influenciar nossa respiração, nosso tônus muscular e a maneira como nos movimentamos e ocupamos o espaço. Com o tempo, aquilo que o corpo repete muitas vezes pode se tornar familiar e passar a fazer parte de sua organização habitual.
Alguns pesquisadores utilizam conceitos como memória fascial para investigar como essas experiências poderiam deixar registros no organismo. Pelo que entendemos até aqui, estudos continuam sendo realizados para compreender os mecanismos envolvidos, e a ciência ainda não afirma de maneira simples que uma emoção específica fique literalmente armazenada em determinada região da fáscia.
Ainda assim, para nós, professoras de Yoga, talvez seja interessante compreender a memória corporal como o resultado de uma história vivida pelo organismo; o corpo aprende, adapta-se e cria estratégias a partir das experiências que encontra.
Então, se o corpo pode aprender um padrão, ele também pode aprender novas possibilidades.
A capacidade de adaptação e remodelação da fáscia, associada à plasticidade do sistema nervoso, permite que novas experiências de movimento, respiração e percepção sejam construídas ao longo do tempo.
É justamente aqui que uma prática consciente de Yin Yoga pode ter um papel tão interessante: oferecer ao corpo experiências diferentes daquelas que ele repete todos os dias.
O corpo se adapta ao que vivencia
Se queremos compreender como novos padrões são construídos, precisamos olhar também para aquilo que fazemos fora do tapete. A forma como sentamos, caminhamos, respiramos e nos movimentamos ao longo do dia oferece estímulos que se repetem continuamente e aos quais o corpo procura se adaptar.
Por isso, acredito que nosso trabalho como professoras de Yoga vai além da sala de aula. Podemos ajudar o aluno a perceber como se senta, como trabalha, quanto tempo permanece na mesma posição e quais padrões repete sem perceber. Incentivar pausas, mudanças de posição e mais variedade de movimento ao longo do dia pode ampliar o trabalho iniciado durante uma aula de Yoga.
Embora não exista uma posição “perfeita” para permanecer durante horas trabalhando, podemos ajudar o aluno a encontrar diferentes possibilidades de organização e movimento ao longo do dia.
O tecido conjuntivo responde às cargas e aos movimentos que recebe e possui capacidade de remodelação ao longo do tempo, da mesma forma, o sistema nervoso aprende e se adapta continuamente.
Isso significa que os padrões que construímos não precisam ser necessariamente permanentes. Novos estímulos, quando repetidos ao longo do tempo, podem criar novas possibilidades de movimento e organização corporal. E é justamente por isso que aquilo que o aluno faz no dia a dia importa tanto quanto aquilo que experimenta durante a aula.
Naturalmente, essa capacidade de adaptação varia de pessoa para pessoa e depende de muitos fatores, como idade, anatomia individual, histórico de lesões e condições de saúde. Como professoras, não podemos prometer que uma alteração postural será completamente revertida, mas odemos, porém, ajudar o aluno a compreender que a repetição de novos hábitos e experiências de movimento no cotidiano também participa desse processo e que, mesmo em diferentes fases da vida, o corpo mantém alguma capacidade de adaptação.
É por isso que a prática não termina quando saímos do tapete, já que aquilo que fazemos repetidamente também ensina o corpo.
Onde o Yin Yoga entra nessa relação?
Durante uma prática de Yin, permanecemos por mais tempo nas posturas, reduzimos os movimentos e os estímulos externos e direcionamos a atenção para aquilo que acontece internamente. O tempo e a quietude criam espaço para perceber sensações que muitas vezes passam despercebidas em práticas mais dinâmicas ou mesmo na correria do dia a dia.
É nesse espaço que podemos desenvolver algo essencial: a capacidade de sentir e reconhecer o próprio corpo.
O aluno começa a perceber onde existe tensão, como está respirando, como reage diante de uma sensação mais intensa e quando precisa ajustar ou sair de uma postura. Aos poucos, propriocepção e interocepção podem ser exploradas de maneira mais consciente.
O silêncio, a respiração confortável, os movimentos lentos e as permanências podem criar condições favoráveis para a desaceleração e para uma maior participação do sistema parassimpático.
Por isso, ensinar Yin Yoga vai muito além de colocar o aluno em uma postura e contar os minutos. Precisamos compreender o estímulo que estamos oferecendo, observar as respostas do corpo e permitir adaptações quando necessário.
Quando uma prática é bem construída e respeita a individualidade de cada aluno, o Yin Yoga pode se transformar em uma oportunidade de desenvolver percepção, escuta e novas possibilidades de relação com o próprio corpo.
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Referências
MYERS, Thomas W. Anatomy Trains: Myofascial Meridians for Manual Therapists and Movement Professionals.



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